Entrevista com o sensei Hélio Arakaki

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Entrevista com o Sensei Hélio Arakaki, 6º Dan pela CBK, delegado regional e representante da ISKF Brasil no estado do Mato Grosso do Sul, discípulo direto de um dos introdutores do Karate Shotokan no Brasil o mestre Juichi Sagara 9º Dan Karate Shotokan que faleceu no ano de 2001.
Sensei Hélio Arakaki é o instrutor chefe do instituto Muryokan e faz um grande trabalho através de palestras e seminários sobre Karate-do. Ele que se formou sob os ensinamentos do mestre Sagara há 35 anos atrás.

 

Essa entrevista traz um assunto muito importante para que os Karatecas estudantes possam refletir no dia-a-dia, sendo um faixa-preta formado ou até mesmo um aspirante ao 1º Dan.

 

O Sensei que gentilmente respondeu á 7 perguntas muito relevantes sobre esse tema que nos conduz a muitas reflexões sobre nosso comportamento antes, durante e depois de se formar faixa-preta.
E o tema principal foi procurar saber sob a visão e conhecimento do Sensei Hélio Arakaki:
Qual a diferença de ser um faixa-preta e ter a faixa-preta?

 

Jefferson: Sensei em sua opinião quais as qualidades necessárias para tornar-se um faixa-preta?

 

Sensei Hélio Arakaki: Além de uma técnica correta, o seu caráter. E quando me refiro ao caráter, incluo as qualidades da autodisciplina, do respeito, da humildade e do autocontrole.

 

 

Jefferson: Quais os aspectos mais trabalhados no aprimoramento do caráter do aluno em sua escola?

 

Sensei Hélio Arakaki: Sigo a escola de Sensei Ginchin Funakoshi, tendo como ênfase o Karate como instrumento de formação de pessoas úteis à sociedade. Sensei Sagara, sempre orientava, a nós sensei, que formar lutadores não é o objetivo único de quem ensina, mas formar pessoas do bem. 

 

 

Jefferson: Quando o sensei consegue saber o momento certo de incentivar o seu pupilo a testar-se em um exame de graduação superior?

 

Sensei Hélio Arakaki: O convívio me dá essa certeza. Sabendo que o aluno é comprometido, possuidor de um comportamento coerente, eu começo a prepará-lo para o exame. Isto não significa que vá realizar em breve. Aliás, essa é uma questão importante, perceber o grau de ansiedade do aluno em obter a faixa preta. Pois se está ansioso, significa que deve aprender a se controlar. Somente, então, estará apto para a graduação de faixa preta ou mudança de Dan. 

 

Jefferson: O que você vê como essencial para que um faixa-preta se torne um grande professor de Karate-do?

 

Sensei Hélio Arakaki: Praticar e estudar o Karate com o espírito de um iniciante. Um Sensei, não pode deixar de evoluir, seria um desrespeito para com alunos. Hoje eu disse aos alunos que para entender com profundidade o Karate, deve-se pratica-lo por mais umas “quatro vidas” e mesmo assim, não teremos entendido na sua totalidade. 

 

 

Jefferson: Em sua opinião um atleta multi-campeão pode ter os requisitos necessários para se tornar um bom professor? E a relação de atleta competitivo, pode de alguma forma afetar o lado do Budô?

 

Sensei Hélio Arakaki: Vejo com grande preocupação a prática apenas do Karate competitivo, onde se deixa de lado os fundamentos como o kihon e o kata, que são os alicerces que sustentam o Karate por toda uma vida. Eu tenho 55 anos, passei a maior parte do tempo praticando kihon, kata e os fundamentos do kumite e suas variações: sanbon kumite, ippon kumite, jyu ippon kumite. E graças a esses fundamentos que formam o que defino Karate de Raiz, que mantenho treinando, seja individualmente, seja com os alunos o kihon, kata e kumite. 

Quem pratica somente karate competitivo, não suporta um treinamento de kihon com fundamentos básicos. E fica uma pergunta: quando deixar de competir o que o indivíduo terá para treinar? Provavelmente, deixará de treinar. Pois viveu uma vida toda no Karate movido por resultados. Karate Budo, não visa resultados. É um modo de vida, onde a prática pela prática é a motivação que move o corpo e o espírito. 

 

 

Jefferson: E a pergunta que é mais aguardada para nós os estudantes. Qual a diferença entre ter faixa-preta e ser um faixa-preta?

 

Sensei Hélio Arakaki: Ser faixa preta é treinar com a empolgação de um iniciante sempre. Ter a faixa preta é ver os anos passar sem que se tenha treinado com assiduidade. 

Quando alguém se aproxima e diz: eu cheguei a faixa preta, silenciosamente, eu digo: se chegou e parou, não pode dizer que é faixa preta. 

 

 

Jefferson: Quais são os projetos para o futuro relacionados ao Karate-do?

 

Sensei Hélio Arakaki: Quero tornar acessível meus conhecimentos adquiridos ao longo dos anos como Sensei a muitos que estão dando aulas em locais longínquos para que possam ter recursos didáticos para poderem ensinar o Karate Do de forma mais elaborada e dentro de um parâmetro técnico, seria democratizar o conhecimento da Arte.

 

O KARATE-DO COMO FILOSOFIA DE VIDA

 

O Karate-do é uma arte marcial que vai além dos tatames. Essa é uma frase muito comum entre os caratecas que buscam manter viva as tradições e ensinamentos dos antigos mestres e o legado deixado para nosso usufruto.

 

“O guerreiro deveria se esforçar em ser o mesmo na aparência, não obstante o que ele estivesse fazendo ou o que estivesse vestindo. Quer ele esteja simplesmente indo para o seu dia a dia ou indo para a guerra encarando a morte, ele deve ser o mesmo e agir igual confiante, calmo e preparado para agir, e completamente alerta internamente. ” (HASSEL, R.G. Conversations with the master: Masatoshi Nakayama. St. Louis: Palmerston & Reed Publishing Companha (1983) 245 p.)

 

O melhor uniforme que um carateca pode vestir é sua conduta irrepreensível seja dentro ou fora do tatame, os treinos dia-a-dia conduzem ao aperfeiçoamento do caráter.

 

O Karategi (Kimono) é um bom exemplo, é possível fazer uma analogia com a nossa vida; e mantê-lo sempre limpo é como uma tarefa árdua, pois quando você treina firme e o suor escorre sobre sua face, faz o seu corpo expelir simbolicamente a sua energia causando uma fadiga temporária em seu corpo, e é nesse ponto você constata que seu Karate Gi começa a ficar com tons amarelados, é como regurgitar o que não é bom para nosso corpo, o que obviamente só pode ser desencadeado pelo suor e do seu esforço, aquela tarefa diária mais difícil acaba por ser realizada e você acaba de liberar todas as energias negativas que acumula no dia-a-dia, deixando assim também seu espirito limpo.

 

Em resumo você limpa a sua casa (Corpo), e joga as impurezas para o meio externo (Ambiente).

Assim é o Karate-do como filosofia de vida, você passa expelir constantemente através dos treinamentos os pensamentos pretenciosos, a soberba e a raiva, e isso ocorre durante as sessões de treino. Assim estaremos fazendo a mesma tarefa de limpeza do Karategi, porém estaremos consequentemente purificando a nossa mente e eliminando os seus pensamentos ruins, substituindo-os por objetivos realmente importantes a manutenção de nossas vidas.

 

As pessoas desde muito cedo são orientadas a aprenderem as tarefas para desenvolvimento físico, você idealiza algo e executa, simples assim. No Karate-do somos conduzidos a compreensão de aspectos mentais, emocionais e psicológicos.

 

Não importa a dificuldade que você enfrentará em seu dia. O carateca quando bem treinado o fará sem hesitar, mesmo se precisar repetir mil vezes até conseguir. Como o samurai quando diz que vai fazer algo, é como se já tivesse feito.

 

Não haverá chuva o sol forte o suficiente que nos fará recuar, apenas a simples realização de nosso objetivo. E não me refiro apenas aos exercícios e golpes de Karate, mas qualquer tarefa em nosso cotidiano.

 

Nosso exercício diário como Karateca é olhar para as variadas tarefas através de níveis dificuldades, uma coisa é certa sempre iremos em busca supera-los progressivamente.

 

Jefferson Oliveira

Professor de Educação Física e estudante Karate-do

OSU!

 

Fonte: Diário de um estudante de Karatê

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